25 agosto 2010
II - O braço sai
23 agosto 2010
Crônicas de Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
01 junho 2010
REMINISCÊNCIAS DO AVESSO
26 abril 2010
ABRAÇO ETÉREO
É tão tarde. Ouço sombras de você. Navego, então, no teu leito, no teu corpo que não é mais meu.. Há calmaria. Não sei bem se é noite ou se é dia, haja que essa luz que me norteia é diferente de tudo que já vi. Teus olhos me perpassam e sei que também sentes o meu abraço.
É tão tarde. Navego, agora, pelo mar da tua ausência, como gaivota órfã singrando todo um espaço vazio pois a névoa, de cor rosa, veio novamente, de mansinho e já te recobre, como se desvelada mãe cuidando de seu filho. E com a névoa você vai embora e no retorno do perfume no caminho, adormecida, no meu sonho acordo.
E sei, como sei, que mesmo longe no etéreo, de mim ficou a gaivota em asas e, de você, trouxe assim o refrigério de um encontro fugaz e verdadeiro.
07 abril 2010
Substantivo próprio que forma o coletivo também!

Venho ponderar, refletir, revelar e relatar que me foi dado, e a tantos outros, posso lhes dizer que um sem fim, o rótulo de deficientes, como se fôssemos, por exemplo, vidros de remédios, que precisam de bula, e têm rótulo, para alguns até eu assinalaria “tarja preta”, ou até mesmo potes de ingredientes, sei lá, que essa coisificação do ser me incomoda. E por que remédios? Porque, na verdade, para muitos essas deficiências que se vêm são remédios para os karmas adquiridos...Possa ser? Mas, só para nós???!!!
Metáforas à parte, e ironias também, tenho vindo refletir, sobre vários temas, livre no meu caminhar, poesias, crônicas, textos, que espero não sejam palavras ao léu, e se o foram até então, neste momento, por certo, não o serão.
Tenho visto muita gente me chamar, por exemplo, entre outros petulantes rótulos “cadeirante” e meu olho se estatela, pra rimar com a minha costela, que também veio da de Adão. Eu me recuso a aceitar semelhante título, até porque sou substantivo e não adjetivo.
Quem sou, vamos nos recordar? Às vésperas do meu aniversário uma “senhoura”, já beirando alguns anos de rota, trilhas, experiências, amores, vida, alegria, espetáculo de vivência, de fé, coragem, maternidade, maternalização, viuvez, sonhos, paixão, trabalho árduo, realizações, aprendizados, dores e carinho.Perfeita? Não. Plena. Então além de substantivo eu também aceito o advérbio de modo. Como estou? Plena.
Plena inclusive desses rótulos multifacetados e multiaplicados, que deixam desaparecer o nome, a forma, o ser, do verdadeiro cidadão, que deve chegar antes da cadeira, da muleta, do cão treinado, da bengala, branca ou marron, dos óculos de grossas lentes, do corpo disforme...até por excesso de comida...até por carência alimentar...e outros tantos aparatos de sustentação.
Plena ainda, de preconceitos velados, sob o manto detestável da suposta e irreal capacitação. Cercada de tantos estudos eu não vejo a solução. Tantas pessoas me tomam a vaga especial, de roldão. Outro tanto delas não consegue naturalmente dar a sua mão, para andarmos de mãos dadas, tão gostoso e tão bom. Não!! Repletos de dogmas imaginam que o pobre deficiente pode de repente se apaixonar e amar e sensorialmente sentir, olha que beleza de pleonasmo. E aí você tem a mão ajuda, a mão cuidado, a mão repulsa, a mão que empurra, que acomoda a direção, a mão que é um não....e todas sem nenhuma expressão.
Queridos elos, a vida é soma de qualidades, lembrem-se do uso do filtro solar, levando a resultados e crescimentos tanto úteis quanto inúteis...e também é feita da soma das dificuldades caracterizando tanto descobertas de soluções como de destruições.
E se nos pusermos a refletir vamos sentir e perceber que há dualidade em tudo desde o nascer. Para a noite há o dia. Para o corpo há a alma! Para o defeito a hipocrisia? Ou para o defeito a sustentação? E ainda para o defeito a aceitação! E mais, para o defeito a correção! E assim parece que vamos saindo do lado avesso da via.
Bom meus amigos, porque estou a falar tudo isso. Ah! Porque eu me lembrei que não deveria esquecer nunca de dizer, olhemos todos ao nosso redor e tentemos, mas tentemos mesmo, pra valer, pra arrancada final, da pacificação e soma social, ver no outro o substantivo próprio, masculino ou feminino, ou nem uma coisa nem outra, e vamos nos estendendo as mãos, em soma de realização, sem tanta preocupação com o rótulo de identificação, que é subjetivismo...autêntico...e...de carregação.
Senhores com nomes, somos seres humanos exercendo o humano de nossos seres, vamos então finalmente ser de verdade e se a alguém ouvirem dizer cadeirante expliquem que a cadeira não faz parte do ser, e não chamemos a ninguém de pisantes, enxergantes, eficientes, normóides e outros rótulos mais, próprios, isso sim, para coisas e não para pessoas.
Ah! A todos aqueles que como eu andam de mãos dadas...meu sorriso mais feliz…e vou parar por aqui...com apoio na minha cadeira...apenas pra ir e vir...tá... sem deixar de ser Márcia Fernandes Vilarinho Lopes, substantivo próprio que forma e conforma o coletivo também.
Criado e postado por Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
04 abril 2010
Quando chega o outono
Chove em mim, dentro de mim chove, e minha alma encharcada se despede da estrada primavera, como triste hera, desse mesmo meu caminho, ora em bifurcação.
Chove em meu coração, na despedida do ninho, dos filhos, outrora tão pequenininhos, ora pássaros em revoada total.
Chove em meus olhos, pra fora, um pranto ardente, impedindo que a represa me sufoque.
Novos tempos, nova vida, novos valores, novos aprendizados...e eu eterna aprendiz no caderno de caligrafia da vida sou obrigada a compor um novo e inédito "abc".
Recomeço, reconquista, ativista, solitária e perdida, sem semáforos, só vielas, cadê o meu velho caminho conhecido em seu palmilhar?
Terremoto é assim que te chamo tempo, idade, a solapar a minha base, a consumir meus vestígios.
Fostes primeiro, partistes, e o pranto derradeiro se estende por minh'alma adentro até onde o posso alcançar, no etéreo após a morte, ambos a soluçar a saudade que dói dia após dia...intermitentemente.
Não te perdoarei jamais por teres aqui me deixado, assim tão nua de você.
E agora se vão eles, primeiro a filha mais velha, novo lar, novo aconchego, novo núcleo familiar e na sequência o mais novo, nova lida, nova vida, novas chances...novo até breve com gosto de adeus.
Adeus primavera, adeus dias de alegria e brincadeiras, onde a família estava inteira, sem que eu como agora com as fotos apenas tivesse que conversar.
Essa saudade bandida que carrega o presente como simples vendaval, sem que possamos prender o tempo precioso no abraço mais gostoso que, um dia, já pudemos dar.
E no presente...o caminho à minha frente...mostra-me o outono latente...sozinha a passar, pelas folhas dessa trilha, cor vermelha, já tão secas, mas sem perderem a beleza da natureza em seu pulsar.
E enquanto chove, pavorosamente, em mim, chega você...assim também tão simplesmente, nesse seu ir e vir, nesse ficar.
Mais uma vez com a emoção aos saltos e os olhos a viajar, na ansiedade de entre tantos de longe já te avistar.
E nessa distância havida, eu aqui, você acolá, chega-me o velho retrato da saudade a demorar.
No entanto, no teu abraço, o meu riso, e pronto.
A chuva vai-se embora. Novo sol já a brilhar.
Criado e postado por Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
28 março 2010
Da cicatriz da ostra à cicatriz em mim

Pendurei minhas lágrimas em fieira ornamental do meu próprio eu a soluçar remanso. Rasguei a foto em que o colar de pérolas parecia igual. Da cicatriz da ostra à cicatriz feita em mim. Recursos naturais, mão do destino, ou de Deus, a nos dizer que há sempre o sobrenatural. Pendurei, depois, os meus sorrisos no anzol e pesquei outros sorrisos sem igual e me fortaleci na sombra do próprio sol. Solucei, então, meu corpo nas gotas da chuva para restaurar a vida que se esvaia e da chuva, então, bebi....apenas o orvalho. Foi quando o céu amanheceu de novo.
Criado e postado por Márcia Vilarinho
28/03/2010
11 março 2010
ANJOS EM COMPLÔ
Como afinidade é complô organizado pelos anjos, eles todos se apoderaram de nós dois e nos fizeram extremante unidos em ser e ver e viver e fazer e acontecer.
Os dias seguiram como brisas tépidas e se fizeram em meses de tórrido calor disfarçado até o momento em que a sua mão tocou a minha em distraído sem querer.
Em fração de segundos a sua energia me alcançou a me acordar inteira, sendo que adormecida tão simplesmente quisera estar e me manter....
E as brisas tépidas foram varridas por um verdadeiro furacão de desejos trazidos pelo amor mais imenso e insano que você não pôde tomar e nem ter.
E no epicentro da vida, transformada em furacões repletos de luzes e cores, amores, desejos e paixões, somos, agora, dois elos perdidos, sem jamais estarem soltos de um tão grande bem querer.
E em tempos diferentes você vai enquanto eu venho e ao final...do desencontro...o telefone toca, eu atendo e digo "Alô" .... e “Alô” ouço você responder ....
E novamente eu nuvem calma em céu particular...semi adormecida...acordo bem devagar... pois, o fio do telefone nos une em carinho maior que afeto... desde sempre em querer.
E a cada dia espero o furacão se tornar brisa tépida em lugar do tórrido calor disfarçado, sem desligar o fio terra...tentando novo amanhecer.
E por não mais conseguir, assim decidi...agora...neste momento...vou pintar um céu igual ao meu pra você....e quem sabe dele você então possa me ver...como sua rosa...a reviver...
E , no complô de anjos, Saint Exupéry feliz, por certo, haverá de renascer...
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Nota: Antoine de Saint-Exupéry
Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry filho do conde e condessa de Foscolombe (29 de junho de 1900, Lyon - 31 de julho de 1944) foi escritor, ilustrador e piloto da Segunda Guerra Mundial. Escreveu, entre tantos, o livro "O Pequeno Príncipe", em que o pensamento assim expresso: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas", tornou-se mundialmente conhecido e reconhecido.
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Criado e postado por Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
03 março 2010
MINÚSCULO FELIZ ESPAÇO DE TEMPO
Na varanda frente a imenso jardim, em que as madressilvas predominavam, um pássaro chorava o finalizar do dia em triste melodia.
As luzes das casas se acendiam e as das ruas, ao longe, lembravam faróis, daqueles que sinalizam os navegantes.
Um forte estalar de chinelas se fazia ouvir de aqui para lá, anunciando o peso de quem delas se servia.
Ao seu lado uma criança, em correria junto a um cãozinho malhado, como se figuras de revista, tão lindos formados em par...de cores e alegria.
Ao longe, bem ao longe, um vulto se distinguindo das demais pessoas toma a direção da casa, abrindo delicadamente o portão, vestida em tom de madressilvas, um belo rosto de mulher jovem, de aparência amorosa, determinada e meiga.
Correm a criança e o cão e nos seus braços, recurvada, encontram guarida.
As chinelas sossegam e se fazem imperceptíveis sinalizando paz e calmaria a um coração até então aflito.
Da cozinha um delicioso aroma se esparrama pela vizinhança...e a fome se faz presente e cria água na boca...por algo que só faz presumir delícias...
Normal a vida, normal o dia, normal o amor, paz, tranqüilidade e o alimento a ser servido.
Lembranças de minha mãe e de minha avó...em palácio quimera que nunca mais encontrarei eu....senão no retroagir da ampulheta do tempo...a marcar e remarcar boas lembranças.
Saudade....
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Criado e postado por Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
02/03/2010
01 março 2010
TIMONEIROS DO AMOR

Estamos no último trecho de uma época, de uma era, ou de uma reencarnação sem nos permitirmos calar o amor, a alegria, a emoção, metas e nossos corações, livres de mágoas e dores que o tempo levou com o vento, na aragem última que soprou.
Novos mares, novos tempos de calmaria e paz, em águas tépidas e límpidas, refletindo a luz em todas as cores de força dos plexos corporais em extensão aos plexos universais.
O céu está vestido de ouro sobre azul e as estrelas, à noite, enfeitam o firmamento dançando com os raios de luz que enfeixam o luar.
E como timoneiros de um sentimento comum paramos os motores, respiramos o silêncio, no encontro do encanto da magia em mais um novo alvorecer do amor.
Sem dúvida quanto à rota, sem dúvida quanto ao sonho, de almas dadas, olhando para a mesma direção este se fez o momento de um presente comum, arquitetado, plasmado e esperado na quietude dos momentos de um tempo que se confirmou.
Assim, em suavidade, nossos corpos na recíproca do acalentar e acalantar, na calma da descoberta, na suavidade da carícia do êxtase primeiro até o êxtase total...
27 fevereiro 2010
O SABIÁ LARANJEIRA E O BRASIL

Nascia o dia...em parto normal, no território do Brasil.
O sabiá laranjeira, ao pé da rua, em pleno alvorecer, como símbolo das terras sagradas em verde e amarelo, entoou seu primeiro canto do dia, como se flauta...só não sabia se era o seu canto próprio...ou se seu próprio canto se fazia em Hino Nacional.
Não nos esqueçamos que o sabiá canta, em magia, ao alvorecer e ao por do dia...
Abri o jornal. Estanquei...com a situação de Brasília. Na seqüência, engasguei-me com o próprio ar ao ler sobre a visita do Presidente a Cuba, desculpando-se pela morte de Zapata, faltando-lhe, na foto de jornal, uma bacia dourada e uma toalha alva para lavar as mãos, mesmo assim, subjetivamente as plasmou, ao dizer: “Eu não recebi nenhuma carta. As pessoas precisam parar com o hábito de fazerem carta, guardarem para si e depois dizerem que mandaram para os outros. Se essas pessoas tivessem falado comigo antes, teria pedido para parar e eu, quem sabe, teria evitado que eles morressem, de forma que eu lamento que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome”.
Todos os países, sob o autêntico manto da democracia, protestaram pela ausência de respeito aos direitos humanos em Cuba, pedindo a libertação dos presos políticos naquela ilha...nenhuma só palavra...nesse sentido, do nosso representante...em nome do povo brasileiro...o que, de per si, representa indício de profundo desrespeito ao mandato que lhe outorgamos.
Os cubanos, que por aqueles direitos lutam, haviam referido se encontrarem com o Presidente e, este, atribuiu, de forma absurda, ao próprio Zapata a responsabilidade por sua morte, em atitude grotesca...dizendo que o líder se deixou morrer por uma greve de fome, como se no fato não houvesse resquício político algum de luta pela dignidade humana, no ato que o levou à morte.
Conforme consta da imprensa nacional, houve abstenção de qualquer posicionamento, do nosso país, quanto ao pedido do grupo de presos políticos cubanos, quando se entende, sim, dever da diplomacia brasileira haver promovido um encontro entre o nosso Chefe de Estado e os nobilíssimos dissidentes cubanos.
Reanimada do engasgo, tive a sensação de sentir sob meus pés, insensíveis, pré-anúncio de grande terremoto, tão abismada me pareceu a falta de representatividade brasileira, por nosso porta voz maior, perante o abominável fato, que se revela perigoso, reitero, pela projeção que encarta o comportamento do Presidente, se especializando cada vez mais em ser detentor do poder, pelo poder.
Alguém precisaria lhe dizer que poder representa a capacidade de realizar, e realizar no caso do Chefe de Estado Brasileiro, é garantir e defender os princípios democráticos para os quais lhe investiu o povo brasileiro, em qualquer lugar em que se encontre em função do cargo que detém em conseqüência apenas de mandato eleitoral a ele concedido pela maioria do povo brasileiro e só por isso está ele encarregado de nos representar, ficando o seu unilateralismo e pessoalismo relegados apenas a sua vida particular, se assim o quiser.
E mais, tarde ao alvorecer, refletindo, ainda, sobre o quanto estamos, todos, dormitando à sombra das alvissareiras, e falsas, notícias de progresso nacional...subtendendo que se saiba o que é progresso nacional... pedi ao Comandante Maior do Universo, que permita um despertar à consciência deste amado povo, para mais um ano eleitoral...e, só então, percebi que o sabiá laranjeira não cantou, como de costume ao entardecer.
Pareceu-me, assim, que nem mesmo o sabiá se conformou e entristecido mudo ficou, talvez em protesto, talvez impossibilitado por qualquer outro tipo de engasgo...até por alpiste talvez...
Faltou-nos, pois, o seu sonoro canto...que continuo sem saber se não será o hino nacional do país... de que ele como pássaro é símbolo e representa.
Acorda Brasil...canta sabiá...faça-se poesia, do dia a dia, a letra do nosso Hino Nacional..praticando-a...senão vejamos:
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas.
Se o penhor dessa igualdade.
(...)
Criado e postado por
Márcia Vilarinho
27/02/2010
21 fevereiro 2010
Boneca de pano
Sentada num canto, tal qual boneca de pano, vislumbrei o céu, plenamente azul, acomodada num tapete voador escondido em minha mala.
Na estação das águas claras, as pessoas circulavam em uníssonas gargalhadas de alegria, algumas dentro da água, outras ao sol.
Em poucas pessoas, meus olhos acostumados ao brilho do nascer de cada dia, conseguiram perceber algumas gotas de amor.
E o sol, causticante, aquecendo intensamente o meu corpo se fez também clamor de alma que num pequeno e desvalido brado disse adeus.
No trem da vida, vários passageiros sobem e descem, alguns permanecem, outros se vão...não apenas durante a viagem...mas, sobretudo, do nosso coração.
E a boneca de pano em seu vestido de chita esquecida ali num canto ainda faz da vida um mágico eterno encanto.
12 fevereiro 2010
Da força dos opostos
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O céu ribombava em trovões gigantescos gritando a fúria dos céus. As nuvens entumescidas e obesas num balé sarcástico se esforçavam para acompanhar o vento, vendaval, que assobiando a cantiga macabra, que só os ventos são capazes de saber assobiar, provocavam receio e medo em todos que percebiam o céu se desmoronar. A chuva não tardou a cair, alagando ruas, derrubando barracos, casas e levando carros de roldão. Várias árvores arrastadas sem piedade com raízes, folhas e frutos. Hortas desmanteladas,. Pomares desguarnecidos. Fome de amor na natureza saturada do vazio dos homens no dia a dia de sol.
O sol surgiu rapidamente e clareou o caos no sorriso amplo dos céus. As nuvens adelgaçadas e finas num balé enigmático bailavam em sintonia com a brisa, suave e meiga que arrefecia os poros de todos os seres humanos em carícia tépida e sensual num acalanto de amor, baixo ao céu a se azular. A vida não tardou a brotar, secando ruas, germinando novas sementes de árvores, através do pólen das asas das borboletas multicores. Hortas esverdeadas e vitaminadas. Pomares repletos de flores. Fome de amor dos homens vazios na natureza saturada do dia a dia de sol.
Bem como esses dois cenários de diferentes orgias da natureza, viva e eficaz, eu sou por alguns dias tempestade bravia e em outros brisa tépida em acalanto, sempre em função do amor que me tempera toda em toda e qualquer aflição.
E se algum dia quiseres, da alma de uma mulher, buscar a compensação entre a tempestade que assola e o sol que lhe consola, procura saber sempre qual é a distância entre ela e a lua.
E enquanto sobe a maré, na febre do próprio mar, eu me consumo nos dias entre a fúria e o sorriso dos céus, simplesmente pra te amar.
07 fevereiro 2010
Quando a vida aprova a vida

Um dia, no colégio, uma criança, com 07 anos de idade, ao brigar com meu filho, disse-lhe: bem feito, sua mãe vai morrer logo, porque ela é paraplégica e você não vai mais ter mãe.
Nesse mesmo dia, em casa, com o os olhos marejados abraçou-me, soluçando, e me contou o ocorrido, pedindo-me para que eu não morresse nunca porque ele não queria ficar sem mãe.
Conversei muito com o meu filho naquele dia, mortificada, porque jamais permiti que a minha paraplegia os alcançasse (tenho mais uma filha também), pois eles poderiam ter outras dificuldades como seres vindos ao “planetinha” para aprendizado, mas essa não. Essa era só minha.
O fato ocorrido, de maneira tão comum entre pequeninos de mesma idade, valeu para que pudéssemos conversar sobre o assunto e dar-lhe a merecida atenção.
No outro dia, na escola, escola tão querida que ficará em nós pro resto de nossas vidas, tamanho o carinho, atenção e dedicação com que sempre nos trataram, expliquei o ocorrido à coordenadora.
Observei que seria importante uma orientação direcionada aos pequenos sobre as diferenças existentes entre pessoas, para que, em linguagem simples, pudessem compreender o que significa a dificuldade motora e outras dificuldades que podem afetar a todos, sem exceção, enquanto mortais, quer sejam elas de que espécies forem.
A escola não apenas se limitou ao que pedira e projetou esse trabalho de orientação para todas as faixas etárias existentes na grade curricular compatível.
Muitos anos após o ocorrido, ontem, dia 06/02/2010, realizou-se o baile de formatura do meu filho, e desde que se iniciou a programação para a formatura ele já me convidara para dançar as valsas com ele e me dissera; “Se eu tenho a minha mãe porque vou dançar com a mãe dos outros?”.
Procurei uma escola de danças especializada para pessoas que usam apoio em cadeira de rodas e não encontrei, não ensaiamos nada e combinamos que na hora a valsa aconteceria.
Ontem, exatamente à meia noite, entrávamos, anunciados pelo Mestre de Cerimônia, na pista de dança, para a comemoração, em gala, da formatura da turma de Administração de Empresa com ênfase em Comércio Exterior, do Mackenzie, matutino, Consolação, ano 2010, e as rodas do meu sapato especial deslizaram pelo salão, onde de mãos dadas com meu filho, dançamos a tão esperada valsa, como se anjos dançadores, ao nosso redor, emprestassem-nos suas asas. Há muito não me sentia tão feliz e plena, pois sempre gostei muito de dançar e, independentemente da paraplegia, danço até sozinha.
Ao final da segunda valsa, minha filha, mais velha, e demais amigas de turma dele se aproximaram e a dança, em meio à alegria mais contagiante, acabou se fazendo em grupo, numa irradiante felicidade.
Ao episódio ocorrido há tantos anos, a minha gratidão eterna à escola pelo trabalho de vanguarda, na conscientização dos pequeninos, que hoje homens já estão.
À vida a minha vibração de amor maior a Deus, pela possibilidade que me ofertou de gerar e ter esse filho tão especial, que veio em missão de alegria, após a minha paraplegia.
Nesse momento, filho, lhe digo: - não me esquecerei jamais da valsa que dançamos, por tudo o que ela representou...e que traduzindo se reduz em....amor...pois onde há amor existe aceitação e não o errôneo termo “inclusão social”.
Que na festa da vida, as luzes de neon (luzes frias) chamadas inclusão social dêem lugar ao sentimento maior que nos acolhe a todos no mesmíssimo aprendizado base...e que é chamado amor, porque somente assim todos terão a oportunidade de crescer, conviver normalmente, apesar das diferenças entre cada um de nós, e acrescer neste mundo inserido num universo bem maior que o limite de nossas vistas pode alcançar.
Beijos a todos e parabéns turma do Mackenzie 2010, em 06/11/2010, pela bela e alegre festa que realizaram. Sorte. Sucesso e...muito amor.
Criado e postado em 07/02/2010
Por Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
http://marciavilarinho.blogspot
19 outubro 2009
Metamorfose da chatice

Já começa, o dia, pelo barulho irritante do relógio, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, num crescendo vertiginoso, tomando o dia todo e todo dia também.
Pra completar, chove, não aquela chuva gostosa que nos faz pensar em dormir, aquela chuva horrorosa bem no dia em que você precisa sair e cumprir 24 compromissos, um por hora, sem dormir.
Trânsito, buzinas, carros, sirenes, motos, um montão de motos, muitas motos, mais motos, horário, não vai dar tempo, cheguei, não cheguei, fui, vi e não resolvi...
Caramba! Não almocei, não lanchei, me consumi e, mesmo assim, não assumi a metamorfose do eu, do meu, do sou e do estou.
Chega, chega, chegaaaaaaaaaaa, não quero mais essa rotina insana em que tudo é afazama.
Daqui pra frente apenas o tic, tac, do meu coração, que pulsa e regurgita vida, será o único relógio e também meu guia.
Quero fazer do dia apenas alegria e cores e sorvetes, ainda que em dias de frio, e risos e poesia.
Quero ovo frito, arroz saindo do fogo, na panela bem quente, batata palha feita em casa e salsicha.
De sobremesa, lanche e jantar eu quero bolo de chocolate, brigadeiro e marzipan.
Vou realizar minhas tarefas, quando tudo estiver calmo, em silêncio.
À noite de preferência, pra não perder o dia, o sol, no parto do renascer.
Mas só depois, que meu ser puder expirar, transpirar e recolher amor, aquele mais que verdadeiro.
Feito do fogo que enebria, sem ser eterno, ou repetido, exigido, cobrado, chato.
Quero-o infinito no minuto em que dure, esfuziante e pleno, meio etéreo, de preferência em tons de ouro sobre azul, que é a cor de todos os poetas.
Quero ser harpa e até violoncelo, compondo uma nova sinfonia a cada êxtase.
Romantismo sempre em voga, sempre, com tantos carinhos quanto risos e sorrisos magia em estertor.
Flores, perfumes, velas, penumbra, música, água, o som de água, o mar, talvez.
Que o telefone não toque e que eu crie em cada dia um novo plano pleno.
Que nas manhãs eu possa ser meiguice e calmaria quando espreguice.
E não vou ser, por enquanto, apenas avó precoce.
Porque estará sempre em mim o ser em apoteose.
Já que há tempo pra tudo, pra florir, semear e colher.
E aesse perfume é o que chamo minha alma de mulher.
Que eu faça da vida, nas manhãs, uma metamorfose eterna.
Transformando toda e qualquer chatice em estrela vésper.
Luminosa a bailar única no céu sem luar e escondida no dia a dia.
Num canto com encanto repleto de pleno e total mistério, porque
26 setembro 2009
Que saudade grande eu sinto de você

Que saudade grande eu sinto de você!
A vida nos fez aprendizes de verdade, quanta dor, quanta alegria, entre nós tudo ou foi salgado demais ou doce em demasia.
Que saudade grande eu sinto de você!
Das eternas brincadeiras, do bom humor, dos dias azuis, e dos cinzas também, nossos carinhos, nosso querer bem mais que querer bem.
Que saudade grande eu sempre sinto de você!
Das brigas e arrufos, das controversas polêmicas, que terminavam em riso, porque você nunca deixou de ser Peter Pan e me fez Sininho eternamente.
Que saudade grande eu sinto de você!
Não pude chorar a sua partida, tão sofrida, e o vazio que ficou em mim está doendo pra sempre, muito mais do que tudo que me espatifou já doeu.
Que saudade grande eu sinto de você!
Eu olho pela janela da vida e revejo cada momento, que força precisamos ter, sem tréguas, um momento sequer, primeiro eu, depois você.
Que saudade grande eu sinto de você!
Trilhas na neve, nas montanhas, como dois apaixonados não só pela vida, senão um sempre pelo outro, desde o dia em que você me raptou pra si.
Que saudade grande, Ka, eu sinto de você!
Era a partida, a despedida e o amor foi maior do que alguém conseguiu imaginar, juntos nas lágrimas profusas do chorar.
Que saudade Ka, que saudade grande eu sinto de você!
Nossas músicas todas estão guardadas, longe daqui, porque eu não quero escutá-las sozinha, nunca mais, nunca mais.
Que saudade Ka, que saudade grande eu sinto de você!
Tome, receba o abraço da minha alma que prometeu viver sempre sem se entristecer com a sua ida, e foi esse o seu último pedido, mas não dá.
Porque que saudade maior ainda Ka, eu sinto de você!
Eu abri aquele armário onde guardei todas as emoções pra não morrer com você e tenho que o arrumar, porque as emoções não cabem mais nele.
De tanta e tamanha saudade que eu sinto de você!
Todas as minhas brincadeiras, minhas palhaçadas, minhas pirraças, sempre zombeteiras pra que, ao final, você achasse graça.
Ka, é muito, muito grande a saudade que eu sinto de você.
E quando eu me lembro do caminhar, juntos, de mãos dadas pela praia, criando as nossas próprias sombras, formadas pelo por do sol, e tirando fotografia delas juntinhas como nós.
Ka, eu sinto muita, muita saudade de mim em você.
Hoje, Ka, especialmente hoje, nada me consola.
Porque é grande, muito grande, a saudade que eu sinto de você.
Márcia
25-09-2009
14 setembro 2009
Brisa e Ventania

Até o último momento a partida estava definida. Oportunidade. Alegria. Novidade. Mudança que quase se realiza, por plenamente formulada, formada, planejada, verificada e pronta, que ainda assim não permitiu deixar ao léu as situações novas que, surgidas num repente, se fizeram prioritárias.
Minha jangada sairia ao mar. A alegre metade de mim se escondia da outra metade triste. Com a partida ficaria aqui o coração em plenitude, num sonho maior disseminado e perdido, mesmo sem antes ser vivido.
A jangada ao mar significa, para mim, a alma frente à amplidão que o mar expressa, traduzindo infinitas possibilidades de realização, mesmo que ao longe esteja a linha do horizonte, pois quando em mar aberto, suas laterais transcendem ao infinito e, nesses momentos, subjetiva e surrealista, sou ventania a varrer quaisquer impedimentos.
Sempre amei o mar. Ele é parte de mim, quando no movimento interno do meu corpo o sangue lhe imita o ir e vir, mantendo o universo do meu eu em equilíbrio e a superfície da minha pele transformada em orla sempre beijada pelas ondas da energia que cria, da mesma forma, o pensamento e a emoção.
Como ave recolhi as asas e impedi o movimento que me levaria para longe do meu coração, num procedimento racional pleno, produzido, elaborado, até na menor partícula de cada ato, porque o racional era o melhor timoneiro que conhecia até então.
A metade triste se fez, então, alegria, ao reconhecer como base fundamental da minha própria vida, da razão de ser, de estar, de vir, de vir novamente e ainda voltar, o ninho cuidadosamente construído. Mais ainda, porque deixaria, aqui, também o sonho, desses difíceis de sonhar, levando apenas a expressão belíssima de suas cores, para sempre, eternamente em mim.
Sem partida, me tornei, novamente, inteira e permaneço brisa e ventania, em busca de fazer tudo o que será um dia. Não trabalhará mais só, portanto, em mim, o timoneiro.
Márcia Vilarinho


