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09 março 2013

Dois amores


Você leu
Não entendeu
Não ouviu
Nem viu
Em cada estrofe
Em cada verso
A história do meu eu
Dos idos e vividos
Tão sentidos
Dos temidos
Destemidos
Dos sonhos
Realizados
Dos momentos
Esperados
De você
Que chegou
Assim
Tão de repente
E ocupou o lugar
Do amor latente
De quem tanto me amou
Pra sempre
E que tão longe
Permaneceu
Nos versos mortos
Biográficos
Escritos pela felicidade
Que você reinaugurou
E hoje sinto
A falta do amor partido
Levado pela morte
E a falta do amor consorte
Trazido pela vida
Que temeroso se ocultou
.
Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
Da série "Lamentos"

 

Minha mãe


 
Chegou devagarinho
Cuidadosos passos
Sustentação atenta
Os olhos vivos
Contando histórias
Constatando fatos
Vendo-me por inteira
E uma ternura imensa
Brotando em mim
Abraçou-a por primeiro
E ao nos sentarmos juntas
Relembrando risos
Jogando cartas
Eu pedi intensamente
Que o tempo não se atreva
A quebrar o movimento
Desse sentimento máximo
Que nos fez cativas
Infinitamente...
Como duas amigas
Muitas vezes em bravatas
Como ramo em flores
Muitas vezes posto em jarros
E ao te ver sair
Com miúdos passos
Agasalhei-me no aconchego
Desse amor que exalas
Mãe...minha mãe
Mulher que me tornou
Sua eterna criança
.
Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
Da série “Momentos”


02 março 2013

Eu quero você pra mim


No passo a passo
Do tango candenciado
Na brincadeira romanesca
Dançamos
Enlaçados
Conversamos
Num canto do salão
Claro e amplo
No portal da vida
E sorrindo
Você se achegou
Lentamente
E sussurrou
Eu quero você pra mim
E me abraçou pra sempre
.
Márcia Fernandes VIlarinho Lopes
Da série "Momentos"

11 fevereiro 2013

Sim, eu te amo sim

Eu te amo sim e assim
Calada e esquecida
Desnutrida
Na sombra do teu eu
.
Eu te amo sim e assim
Enaltecida
Fortalecida
Na força do meu eu
.
Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
Da série: “Solilóquios”

04 fevereiro 2013

O alpendre, a cigarra e eu

I
Do alpendre do apartamento
Que alpendre me faz lembrar
Da samambaia  de metro
Bonita em sua folhagem
Companheira de passagem
Da infância em sonho aberto
II
Desse  a l p e n d r e
Onde me sirvo o café da manhã
Enxergo árvores e ninhos
De gente e de passarinhos
E pela manhã o sol adentra
No brilho que reinventa
 
III
E à noite....
Nesse mesmo alpendre
A lua ciumenta
Vem competir com o sol
E sensualmente lenta
Também é da vida...o sal
IV
 
E hoje no meu alpendre
Chegou sorrateiramente
Uma cigarra que cantou
Cantou e encantou
E de tal forma se anunciou
Que me vi formiga latente
V
E prometi
Aos frequentadores do alpendre
Às folhinhas e aos raminhos
Que mesmo sendo formiga
Vou modificar-me um pouquinho
Aprendendo a cantar também...
.
Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
Da série “Momentos”


30 janeiro 2013

A torre

Separou
Como se fosse o joio do trigo
Se ausentou
Premeditada e exatamente
No momento
Que melhor se ofertou
Não atendeu
Não entendeu
Nem respondeu
Nada falou
Nem explicou
Só decretou
Se escondeu
Não conviveu
Não elegeu
Não cultivou
Nem esqueceu
Nem se lembrou
Se ocultou
Desapareceu
E então estranhou
Quando não foi reconhecido
Na própria paragem que criou
.
Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
Da Série "Momentos"

24 janeiro 2013

Corpos

Corpos são máscaras
Escolhidas
Ajustadas
Vestidas
Para o grande baile
Da vida...
.
Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
Da série “Movimentos”
 

23 janeiro 2013

Estações da vida

I-   Da Estação das Flores ao Tórrido Verão

Quantos estigmas
Quantas amarras
Quantos chavões
Segui a Bíblia
Casamento é procriação
Casei-me por amor
Fomos amigos
Companheiros
Amantes
Cúmplices
Mestre e professor
Reciprocamente
Eternamente
Enquanto durou

II – Da Estação das Chuvas ao Outono

Depois o vazio...
A viuvez esvaziou
O teu olhar no meu
Mas não o meu coração
Veio a luta
A sobrevivência
O manter do ninho
Nossos filhos...
Inteiramente meus
Pequenos pássaros
Pra aprenderem a voar
Vida afora
E sobreviver...
E então eles voaram

III – Do  Estação do Ameno Verão à Etérea Primavera

E as minhas asas
Já meio cansadas
Mais que nunca
Precisavam descansar
E o ninho serenou
E a luta então passou
Como passa a tempestade
E de novo o céu azul ficou
E então uma amizade
Serena em amor é tudo o que bastou
Mãos dadas sem algemas
Corpos juntos na caminhada
Ninhos nichos em árvores separadas

IV – Da Estação Real do Ser

E um voar perto
Com asas repartidas
Assim tão destemidas
Fazem o nosso hoje bem melhor
Sem estigmas
Sem promessas
E em espontânea doçura
Sinceramente meu
Sinceramente tua
Em ventura
Sem prisão
E eu amo
Essa sutileza
De cada novo dia
                            .            .                          
Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
Da Série “Movimentos”

20 janeiro 2013

O coma

Na bifurcação
Da rota
Na dissociação
Da química
Na cavalgada
Fora da relva
No despir-se
E ser tão nua
No falar
Em brado
De calmaria
Que ninguém
Do lado de lá
Do espelho
E  quase ninguém
Do lado de cá da vida
Consegue entender
Nesse exato ponto
Está o coma
Na fragmentação do eu
Que no último momento
Se agarra ao vínculo
Luminoso
Que se mostra
E em que nunca houve mágoa
De qualquer teor
A buscar
Então no “Amor”
A possibilidade
De refazer o caminho
E com autorização
Voltar
E sem autorização
Partir
.
Márcia Fernandes Vilarinho Lopes
Da série "Momentos"
.
Durante anos tentei explicar "O Coma" e agora, num só momento, o defini.