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14 outubro 2009

Saúde Mental - Rubem Alves (transcrito)























Recebi o texto, abaixo, com a anotação " genial" e, de fato o é, por isso vai postado, como alimento para a metamorfose, em forma de madrigal especial.

Considerando, como considero, que a vida terrena é o casulo em que se opera a metamorfose da alma, as observações postas por Rubem Alves, representam, ainda, condições de ligação direta entre o casulo, a alma e a metamorfose dos eternos aprendizes, que somos todos nós.

"Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, dentro do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakovski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, previsíveis, sempre iguais, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é uma coisa muito perigosa...

Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas. Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todos sabem, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente 'equipamento duro', e a outra se denomina software, 'equipamento macio'.

O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades 'espirituais' - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória.

Do mesmo jeito, como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo 'espirituais', e o programa mais importante é a linguagem. Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco faz-se necessário chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas. Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios (o hardware) tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saía de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.

Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade.Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato. Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é.

E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, só então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram".

Rubem Alves



Texto transcrito, postado por Márcia Vilarinho
14/10/2009



10 outubro 2009

Desde lejos en el tiempo


En el contador de visitantes, deste blog, está la bandera de Argentina y dentre los amigos, como no podria ser diferente, estás vos, con tu espírito simples y bién humorado siempre. En tu tierra estuvimos, tantas veces, en epocas en que mis pies aún caminavan y nunca estuvimos solos, porque vos, como nuestro verdadero angel de la guardia, para todas las partes nos llevavas.

De mis viajes hacia allá, no olvidare, entre tantos, el viejo Tortone, la Feria de Santelmo, donde en cada canto en que surgia un sonido de flauta andina yo lo buscava y allá me quedava, tanto me facinava.Hemos vivido, Carlos y yo, hermosos momentos inolvidables, para siempre, en Argentina. La última vez, enfin, em que estuve en Bs As, ya estava viuda y en la silla de ruedas.

Elegi, asi, esto texto para hacer un homenajen a la "paz global" con la posible y duradoura amistad entre tanta jente de tantos países distintos en sus maneras própias de ser.

Traigo la musica que hermana, por medio de Mercedes Sosa, esa cantante, que tanto me gusta y que la puse en los vídeos al lado, donde para cada una de las cuatro canciones ofrecidas hay quatro maneras distintas de presentaciones.

Aúnque, ora muerta, y eso me entristecio mucho, pienso que ella no murirá yamás en sus composiciones.

La
gran reflexión que obtengo de todo eso es que, estando los amigos cerca o lejos de nosostros, cada cual es como si fuera un verdadero "país", tan grande son las peculiaridades y dinamica de cada persona.

Dejo, por imortal, la letra de “Gracias a la vida”, una composición de Violeta Parra.A Diós yo agradesco por la oportunidad de todas mis vidas, con la felicidad de encuentrar amigos tan especiales y queridos desde el dia de mi primer nacimiento y de mis “renacimientos”.


Asi:
Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me dió dos luceros que cuando los abro

Perfecto distingo lo negro del blanco

Y en alto cielo su fondo estrellado

Y en las multitudes el hombre que yo amo

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado el oído, que en todo su ancho

Traba noche y dia grillos y canarios

Martirios, turbinas, ladridos, chubascos

Y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado el sonido y el abecedário

Con él las palabras que pienso y declaro

Madre, amigo, hermano y luz alumbrando

La ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida,que me ha dado tanto

Me ha dado la marcha de mis pies cansados

Con ellos anduve ciudades y charcos

Playas y desiertos, montañas y llanos

Y la casa tuya, tu calle y tu pátio

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me dió el corazón que agita su marco

Cuando miro el fruto del cerebro humano

Cuando miro el bueno tan lejos del malo

Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado la risa y me ha dado el llanto

Así yo distingo dicha de quebranto

Los dos materiales que forman mi canto

Y el canto de ustedes que es el mismo canto

Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida

Márcia Vilarinho
10-10-2009

08 outubro 2009

Descoberta de um espectro


I



Caminhante noturna
Sozinha e tão triste
Para onde caminhas
No rumo das estrelas
O pó da estrada
Encobre tua face
Nubla teus olhos
Envenena tua alma.


II
Caminhante noturna
Por véu embuçada
Silhueta alquebrada
Queda e insensata
Na noite vazia
No sonho agonia
Caminhante sou eu.


Márcia Vilarinho
20/06/69


PS: Essa descoberta poética, em mim, na figura de um espectro, deveu-se à primeira desilusão amorosa, que foi lição valiosa, em que aprendi, na prática, que nada acontece por acaso, pois se o casamento houvesse se dado, então naquele momento, eu não teria conhecido o verdadeiro companheiro, que suportou galhardamente as intempéries do tempo e a fúria do vento, com a força do amor.

01 outubro 2009

O primeiro retorno










Quando me dei conta havia retornado ao corpo e ninguém precisou me dizer que não andaria mais, pois não sentia minhas pernas e sabia, conscientemente eu sabia, a alegria que me invadia era o fato de estar viva e essa era, até então, a grande primeira conquista.

Ao receber, de repente e surpreendentemente, a carta de alforria que me permitiria sair da UTI, um grande e querido amigo, irmão daqueles que a vida engravida e nos dá de presente, que do lado de lá da porta de vidro, finalmente iria conseguir entrar para me visitar, soube que assim o faria já no quarto, pois terminara minha estadia no choque, ou UTI, ou "meio cá e meio lá" no etéreo. Era verdade, eu vivia, e ele, num gesto rápido, conseguiu o maior buquê de rosas vermelhas que até então eu vira e quando a maca saiu triunfante, daquele espaço de revitalização e morte, me vi surpreendida pela dupla beleza das flores orvalhadas pelas gotas daquela terna amizade, a me receberem em nome da perfeita beleza da natureza e humana acopladas como deve ser.

Talvez tenha lido no ar, na energia, na empatia, a sede que eu tinha e que sentia por respirar o ar lá fora, mundo terreno, natureza, pessoas, burburinho, entorno, rodas, maca, destino vida.

Meu amigo, tão especial, foi a minha amiga irmã casada com você que, em outra oportunidade, como se eu fosse criança, me ajudou a jantar, após uma das anestesias do “sei lá pra que que foi”, em homenagem ao mais perfeito “português”.

Aí vocês realmente mudaram de casa, saíram do meu coração onde residiam e vieram morar na minha alma, eternamente.

Foi esse um dos momentos mágicos em que revi, feliz, o rosto firme de minha mãe e norte, mãe e norte, então, da minha filha também, meu pai, querido pai, minha irmã tão dedicada a tudo e a todos nós, meu cunhado com seu incrível texto-cartaz, minhas amigas de infância e da Faculdade, minha amiga especial psicóloga, por fim, meu marido, em porto de emoção maior, além de cada um dos amigos, companheiros de trabalho e parentes, por quem me senti aconchegada em manta de carinho, a suavizar a dor do corpo, onde os ossos não queriam sorrir de jeito algum, pelo menos naquele momento, não.

Faltava, alguém, faltava, eu queria muito abraçá-la e beijá-la, filha, e a direção do Hospital permitiu.

Seu pai foi "buscar você" e pedi que trouxesse também a sua comida, precisava alimentá-la, precisava interagir, precisava retomar a maternidade, a ligação, o elo, e quando você entrou por aquela porta, dando já pequenos passos, vestida de beleza, de mãos dadas com seu pai, você estava tão diferente de como a havia deixado há 45 dias, e a coloquei, com quase um ano de idade, sobre meu colo e brinquei e rimos e lhe dei o jantar, contando historinhas como fazia sempre, até que a emoção tomou conta do espaço externo e interno que havia em mim e então pedi para que vocês saíssem, para não explodir em mar.

A noite se fez, as pessoas se foram, de maneira diferente do que até então, esperançosas e serenas pela grande troca de energias, orações, afeto, vibrações e fé, em que a locomotiva da vida havia retornado à estação de espera.

Ficamos, filha, seu pai e eu. Ali redefinimos nosso pacto de amor e compromisso, pois as pernas haviam quedado inertes, mas os braços não, portanto cada qual com um dos remos a tocar para frente o nosso pequeno grande barco.E quando ele me abraçou, olhando para a quina da parede bege, sete anos antes, tenho certeza, meu filho que o vi, sorrindo e pleno de contentamento esparramando vida, sorrateiramente em corpo de luz, futura fagulha forjada no além, onde acredito recém havíamos nos encontrado.

Os olhos se fecharam, então, depois de muito tempo, enfim dormia, tendo ao lado o marido sofrido, resgatado em amor. Assim a vida, finalmente, reacenderia, a seguir, a luz, em novo dia.

Márcia Vilarinho
30-09-2009

28 setembro 2009

Sexualidade e paraplegia


Trago, hoje, parte de excelente artigo voltado à sexualidade das mulheres portadoras de paraplegia, como matéria de enfoque fundamental à auto estima e parâmetros de sexualidade da mulher, nessa qualidade, em vida ativa e feliz, que pode ser encontrado em sua íntegra no endereço eletrônico, abaixo indicado:


Acta Paulista de Enfermagem
Print version ISSN 0103-2100
Acta paul. enferm. vol.18 no.3 São Paulo July/Sept. 2005
doi: 10.1590/S0103-21002005000300005


Sexualidade e paraplegia: o dito, o explícito e o oculto

Inacia Sátiro Xavier de FrançaI; Adriana de Freitas ChavesII
IDoutora em Enfermagem; Professora Titular do Depto de Enfermagem da Universidade Estadual da Paraíba - UEPB - Campina Grande (PB), Brasil
“Enfermeira”


RESUMO

INTRODUÇÃO: A intenção de contribuir para o desenvolvimento de ações educativas que desmistifiquem mitos e tabus relacionados à sexualidade da pessoa portadora de paraplegia e melhorar a qualidade de vida desse tipo de cliente motivou a seleção do objeto "sexualidade da mulher portadora de paraplegia".

OBJETIVO: Compreender a construção de sentidos das mulheres portadoras de paraplegia acerca da sexualidade e relatar as barreiras enfrentadas por estas mulheres para vivenciar sua sexualidade.

MÉTODO: Estudo descritivo onde os sujeitos foram selecionados por acessibilidade, conforme critérios pré-estabelecidos e, utilizando-se a entrevista semi-estruturada, a coleta de dados e a análise de discurso emergiram categorias.

RESULTADOS: As categorias sinalizaram o processo de negativação da auto-imagem, do auto-conceito e de tendência a auto-discriminação, além de culpabilização, quando da sensação de orgasmo. Também emergiram categorias sinalizadoras da crença no casamento monogâmico como realização pessoal, e que o orgasmo é uma questão de conhecimento do próprio corpo e do corpo do parceiro.

CONCLUSÕES: Conclui-se que o mito da beleza e o mito adâmico normatizam a sexualidade dos sujeitos. Mas nem todas as mulheres estudadas seguem, à risca, as regras da cultura, de modo que um grupo de mulheres portadoras de paraplegia vivencia a sexualidade de forma diferente das demais.


INTRODUÇÃO


O conceito sexualidade adquire conotações diversas e em conformidade com os significados e os sentidos que lhe são atribuídos pela cultura em que as pessoas estão inseridas. Para alguns autores a sexualidade envolve as atividades sexuais biológicas, o conceito que a pessoa tem sobre sua masculinidade ou feminilidade o que influencia o modo como a pessoa reage aos outros e como é percebida por eles(1). A tendência dos pensadores contemporâneos é considerar a sexualidade como um aspecto intrínseco do ser humano que é mais expressiva do que o ato sexual, pois inclui os componentes biológicos, sócio-culturais, psicológicos e éticos do comportamento sexual(2).

Em se tratando da Psicologia Analítica, os seus autores referem que a construção da identidade e as atitudes comportamentais das pessoas são orientadas pelos arquétipos que correspondem aos resquícios psicológicos de vivências fundamentais comuns aos seres humanos, que permanecem cristalizados no inconsciente coletivo e são repassados, indefinidamente, de geração para geração(3).

Para esses autores, a sexualidade humana, além de ser influenciada pelos arquétipos da anima e do animus, é orientada, também, pelo arquétipo Afrodite, a deusa do amor, que era adorada pelos gregos e romanos devido a sua beleza, ternura e voluptuosidade(3). A influência da estética nas relações amorosas fazia com que os gregos confeccionassem espartilhos, sutiãs meia-taça, cintas, enchimentos, modeladores, máscaras faciais e maquiagem para realçar a beleza feminina.A mulher regida pelo arquétipo Afrodite vivencia a sexualidade relacionando-se bem com os outros e especialmente com os homens(4).

A ideologia da beleza, inclusa no mito Afrodite, incute na mente de homens e mulheres que um corpo escultural é sinônimo de sensualidade e de competência sexual e que o seu poder de atração depende da sua plasticidade e da inexistência de um corpo mais encantador que o seu. Assim, aquelas pessoas que diferem do protótipo social de beleza física não são consideradas atraentes. Daí porque levantamos o pressuposto que as mulheres portadoras de paraplegia são tendenciosas a alienar o próprio corpo e a negar o prazer devido a sua aparência física e ao medo de uma intimidade maior.

As questões ligadas à sexualidade dos portadores de deficiência física extrapolam o campo social e se inserem na área da assistência em saúde. Por isso, buscamos publicações no campo da saúde voltadas para o tema "sexualidade humana". Percebemos que o número de publicações enfocando a sexualidade do homem portador de paraplegia é bem superior àquelas que retratam a sexualidade da mulher paraplégica o que reflete escassez de informação, no âmbito das instituições e dos profissionais de saúde, em especial aqueles da enfermagem, no que concerne à sexualidade feminina.

Pensamos que o fato dos estudos sobre a sexualidade masculina predominarem sobre aqueles que enfocam a sexualidade feminina decorre de várias causas: A sociedade dissemina o discurso da igualdade entre os sexos, mas permanece atuando nos moldes do "machismo". Nas décadas 80 e 90 do século passado os homens representavam a maioria dos pesquisadores sobre sexualidade. Outrossim, é de senso comum que, tanto no mundo como no Brasil, os dados demográficos apresentam uma relação de quatro homens para uma mulher o que contribui para que haja mais homens "estudados".

A intenção de contribuir para o desenvolvimento de ações educativas que desmistifiquem mitos e tabus relacionados a sexualidade da pessoa portadora de paraplegia e melhorar a qualidade de vida desse tipo de cliente motivou a seleção do objeto "sexualidade da mulher portadora de paraplegia". E a eleição dos objetivos: compreender a construção de sentidos das mulheres portadoras de paraplegia acerca da sexualidade e relatar as barreiras enfrentadas por estas mulheres para vivenciar sua sexualidade.


Postado por Márcia Vilarinho
28/09/2009

26 setembro 2009

Que saudade grande eu sinto de você


Destranquei o armário onde guardei minhas emoções pra não morrer com você e hoje seria, com certeza, dia de festa, com o eterno problema do bolo.
Que saudade grande eu sinto de você!

A vida nos fez aprendizes de verdade, quanta dor, quanta alegria, entre nós tudo ou foi salgado demais ou doce em demasia.
Que saudade grande eu sinto de você!

Das eternas brincadeiras, do bom humor, dos dias azuis, e dos cinzas também, nossos carinhos, nosso querer bem mais que querer bem.
Que saudade grande eu sempre sinto de você!

Das brigas e arrufos, das controversas
polêmicas, que terminavam em riso, porque você nunca deixou de ser Peter Pan e me fez Sininho eternamente.
Que saudade grande eu sinto de você!

Não pude chorar a sua partida, tão sofrida, e o vazio que ficou em mim está doendo pra sempre, muito mais do que tudo que me espatifou já doeu.
Que saudade grande eu sinto de você!

Eu olho pela janela da vida e revejo cada momento, que força precisamos ter, sem tréguas, um momento sequer, primeiro eu, depois você.
Que saudade grande eu sinto de você!

Trilhas na neve, nas montanhas, como dois apaixonados não só pela vida, senão um sempre pelo outro, desde o dia em que você me raptou pra si.
Que saudade grande,
Ka, eu sinto de você!

Era a partida, a despedida e o amor foi maior do que alguém conseguiu imaginar, juntos nas lágrimas profusas do chorar.
Que saudade
Ka, que saudade grande eu sinto de você!

Nossas músicas todas estão guardadas, longe daqui, porque eu não quero escutá-las sozinha, nunca mais, nunca mais.
Que saudade
Ka, que saudade grande eu sinto de você!

Tome, receba o abraço da minha alma que prometeu viver sempre sem se entristecer com a sua ida, e foi esse o seu último pedido, mas não dá.
Porque que saudade maior ainda
Ka, eu sinto de você!

Eu abri aquele armário onde guardei todas as emoções pra não morrer com você e tenho que o arrumar, porque as emoções não cabem mais nele.
De tanta e tamanha saudade que eu sinto de você!

Todas as minhas brincadeiras, minhas palhaçadas, minhas
pirraças, sempre zombeteiras pra que, ao final, você achasse graça.
Ka, é muito, muito grande a saudade que eu sinto de você.


E quando eu me lembro do caminhar, juntos, de mãos dadas pela praia, criando as nossas próprias sombras, formadas pelo por do sol, e tirando fotografia delas juntinhas como nós.
Ka, eu sinto muita, muita saudade de mim em você.

Hoje, Ka, especialmente hoje, nada me consola.
Porque é grande, muito grande, a saudade que eu sinto de você.

Márcia

25-09-2009

25 setembro 2009

Corpo e alma


Minha'alma retrata o meu rosto e corpo de cigana
No sonho que parece espaço etéreo e virtual
E que, no entanto, traz de real
As rodas do carroção
Transformadas em cadeira que transporta
A nova morada
semi-inerte
Que é apenas instrumento
Pra realizar as tarefas ditadas lá no além
Que com certeza vêm
Como segunda época
Na matéria sedução
E assim segue a cigana
E em seu intento
Continua no carroção
Só que a cigana se esconde
Na alma que habita o corpo
Mudo, em parte, na sua expressão
Vibra a cigana, entretanto
Em todo seu coração
A
intermitente
alegria e vida
Mais amor e liberdade
Muito além do tempo que marca a idade
Para toda e qualquer encarnação
Segue, cigana atrevida
A tua vida vivida nas marcas da contenção
E a tua vida vivendo na alma em ebulição
De maneira colossal
Toda a paixão ideal
Segue cigana atrevida
A estrada no carroção
Que quem lhe vê com os olhos
Não alcança o coração
Nem lhe sente a batida
Da alma que ali habita
E o faz ribombar em canção
Dualidade sentida
Extravasada e vivida
Na cigana em seu carroção


Márcia Vilarinho
25-09-2009



19 setembro 2009

Conversando com Genaura (http://genaura.blogspot.com)




No belíssimo texto expresso corajosa e sinceramente por você, sob o título “Noite de núpcias de uma paraplégica”, identifiquei-me, em muito, com o que você ali descreve, em tamanha força de realidade e emoção.

Na reflexão que ele gerou em mim, você é parâmetro que, finalmente, encontro para poder avaliar as atividades diárias dentro da limitação física, que igualmente se me apresentou como nova forma de sentir e conceber a vida, e, por isso, por primeiro, agradeço a oportunidade de havê-la como companheira de jornada, numa mesma época terrena, ainda que em Estados diferentes, com a possibilidade de trocar experiências, em todos os âmbitos, tão valiosas.

Encontrei, na web, várias reproduções de suas entrevistas, sobre praticamente todos os atos de vida diária, íntima, familiar, social e profissional, relatados com clareza espetacular, própria em pessoas capazes de observar, apreender, modificar, seguir adiante e ainda repartir seu aprendizado, com o forte intuito de dar a conhecer a tantos, em belíssimo exemplo de criatividade, a necessária reversão das adversidades que a vida traz a todos, em diferentes momentos, mais ainda, com toda a sua sensibilidade e capacidade de amor, entre outras.

Num país em que falar de sexo, já de per si, representa quebra de tabu dos mais arraigados, você demonstra coragem e garra, ao falar sobre uma subespécie desse mesmo tabu, que as pessoas imaginam não se quebra e que se refere à expressão dos sentimentos mais bonitos, reais e verdadeiros, através do sexo, praticado naturalmente pelas pessoas portadoras de quaisquer graus de deficiência física, quer sejam: os paraplégicos, os deficientes visuais, os que utilizam sapatos ortopédicos de quaisquer tipos, lentes de contato, dentaduras, perucas, óculos, órteses e próteses de outros gêneros, enfim, reporto-me, ainda, à gama infinita de situações físicas peculiares que não impedem essa natural expressão de vida terrena, própria aos seres vivos do planeta, para sua reprodução, bem como reprodução do amor, dia após dia, desde o início da vida, resumindo a real vitalidade em todas as suas concepções.

Restrinjo um pouco o assunto atividade sexual, para não enveredar pelas ruas tortuosas da polêmica, entendendo, aqui, por deficiência, aquela que atinge o corpo físico como um todo, ou a qualquer componente desse mesmo corpo físico, e que não incorre nas deficiências advindas da amplitude negativa da alma, ou do comportamento que negue qualquer princípio valorativo, social e/ou religioso, por bem diferentes do enfoque ora objetivado.

Irretocável e valiosíssimo, pois, o texto por você expresso, sob a ética do amor, que me permito comentar sob a luz de minha própria realidade, como paraplégica e cadeirante, aos 30 (trinta) anos de idade, que assim me tornei em função de um acidente automobilístico, numa das poucas vezes em que me vali de um táxi, sem que o motorista, que o dirigia, houvesse praticado qualquer infração, ou seja, aconteceu, na Av. Vinte e Três de Maio, às 13:00 horas, num dia do ano de 1980, e, em questão de segundos, espatifou a minha medula, seccionando-a; perfurou-me o pulmão e pleuras; causou hemorragia interna e me levou a um primeiro falso diagnóstico de óbito. Voltei a mim, fui atendida no Choque da Beneficência Portuguesa, um dos melhores da América Latina, haja vista que o acidente ocorreu quase em frente, e eis me aqui.

Nos momentos mais complicados do estado comatoso, um capítulo à parte que tenho buscado compreender através dos estudos cada vez mais profundos e cientificamente comprovados, referentes a EQM (Experiências de Quase Morte), lembro-me de pedir, fora do corpo, muito a Deus que me mantivesse viva, pois, à época dos fatos, casada há dois anos, com uma filhinha de 10 meses, argumentei com o Pai, talvez em oração, sobre a possibilidade, que Ele havia me permitido, de tê-la, de ser mãe, gerando-lhe, como se tecendo roupagem mágica, um corpo físico através de um grande amor realizado, e que se Ele me havia permitido tê-la que me permitisse, então, criá-la.

Lembro-me de vagar buscando, determinadamente, uma autorização para tal, e realmente a consegui. Vinte dias em coma absoluta se refizeram em VIDA e eu que adentrara o hospital em 10 de novembro de 1980, dele saí aos 20 de dezembro do mesmo ano, para poder comemorar o aniversário de meu pai, nesse mesmo dia, e o primeiro ano de nascimento de minha filha, presente de Natal, no dia 24 de dezembro de 1.979.

Meu marido, meu grande companheiro, desde então jamais me limitou à cadeira de rodas, transformando-a, muitas vezes em cadeira de rosas, e, ambos, a tornamos apenas um sapato diferente, que me tem permitido caminhar, desde então, participando da vida, repartindo potencialidades em aprendizado, rico de experiências e criatividade, de sorrisos, alegrias, questionamentos, enfrentamentos e amor, muito amor.

A primeira atitude racional, após a saída do Hospital, diante da análise, frente ao renascimento, foi reformar minha escala de valores e as metas profissionais, no auge da carreira, foram relegadas ao final da lista a serem retomadas, talvez, um dia, pois em primeiro lugar estava conhecer o que significava paraplegia, no dia a dia, como cuidar de minha filha, cuidar mesmo, em todos os sentidos, criando condições que, em outra oportunidade, retomarei o contar em história, fisioterapia, motorista particular e, de repente, eu que sofrera um acidente em mãos de terceiro, lá estava adaptando minha carteira de motorista, meu carro como extensão da cadeira de rodas, alargando minhas portas, minha vista, minha alma, e indo de encontro à VIDA, que eu agradecia, por haver pedido fosse mantida e aonde o pé não chegava a cadeira rodava, e onde ela não conseguia rodar, alguém a empurrava e quando nem mesmo empurrando se conseguia, eu ia no colo, mas ia.

Conheci a solidariedade dos transeuntes anônimos, em sem fim de pessoas incríveis, que me ajudaram, tantas vezes, pelas ruas e a quem agradeço todos os dias da minha vida, em prece especial. Aprendi que não somos ninguém sozinhos e que a vida é feita de soma, até quando dividimos.

Após sete anos de vida conjugal, plena, a lição conquistada esteve em observar e perceber que, muitas vezes, na relação sexual, a criatividade é fator preponderante, para o enriquecimento do prazer, dação, entrega, cumplicidade, expansão, compreensão, afago, ternura, amor em potencial, respeito e realização duplamente conquistada, em ritmo comum que se constrói para tal finalidade, transformando-se numa arte a ser expressa com as tintas e matizes mais bonitos de um verdadeiro vincular-se amoroso, que no meu caso, eclodiu, então, de maneira felicíssima, em gravidez.

De alto risco diziam alguns, como? - perguntavam outros, o certo é que foram nove meses de absoluta saúde em vida normal de atividades.

Só posso comprovar que, na hora do parto, eu soube exatamente o tempo de minhas contrações, através da pulsação, regularmente decrescente em minutos, na região do pescoço. O normal é não percebê-la, diante da concentração de dor na altura do útero. Mais uma vez o corpo respondeu, até pela paraplegia, de forma diferente da normalmente conhecida, suprindo a necessária atuação frente à vida, tanto quanto supre o desejo de nos realizarmos, em termos de expressão.

Assim nasceu o Tiago, explosão de amor perfeito, que se apresenta, em meu ventre, na foto a ilustrar essa nossa conversa, agora, já, com 22 anos de idade e a Graziela, minha primeira motivação de amor absolutamente eficaz, para pedir a Ele que me mantivesse viva, está com 29 anos de idade e casada.

Ele deu-me a mais linda resposta que poderia, eu não criaria apenas uma filha e sim dois filhos.

Valeu, por cada expressão de amor extravasada até pelo menor dos poros existentes em meu corpo, movida pela alma, e aceita por mim e pelo meu querido companheiro.

Que o seu texto, Genaura, realmente produza, ad eternum, o mesmo efeito, em tantos quanto estejam buscando parâmetros, para viver suas diferenças, pois, nós, por tudo o que pude conhecer de você, através de seus escritos, tivemos que criá-los, na força, garra, coragem, amor e fé, decorrentes do mais amplo e absoluto sentido do amor.

Márcia Vilarinho
18/09/2009

17 setembro 2009

Do passado para o presente


Desde a primeira célula, produzida pelo amor, até hoje eis me aqui proliferada, tanto em células como em amor.

Quantas alegrias e sorrisos, quantas pessoas amadas, que floriram as orlas do caminho e se projetaram em minha alma e coração, adentro para sempre, e, desde então, temos caminhado juntas, quer fisicamente, quer em vibrações. Nenhuma de nós se perdeu, nem na rota, nem na junção.

Infância e juventude felizes demais. Conhecimentos adquiridos. Valores assimilados. Brincadeiras de criança, como é gostoso lembrar! Corpo dançando livre, num ensaio, ao som de linda canção. Ah! Você meu primeiro namorado! Não me esqueci de você não! Época de sonhos e encantamento que resultaram passos de vida diária, que me fizeram chegar ao presente, assim, como estou, agora “evelhescente”, ainda com metas e sonhos diferentes em nova trilha para o futuro, que a estrada da vida é repleta de trilhas a serem exploradas e conhecidas, depois de muito bem avaliadas, que, a essas alturas do caminho, não se deve estar desavisado.

Neste momento, que não voltará mais, me despeço do hoje, acoplando toda a energia positiva que me trouxe de “presente” e enviando ao espaço, para a devida reciclagem, tudo aquilo que precise ser re-alinhado e se antes meu corpo dançava livre, num ensaio, ao som de linda canção, hoje é a alma que flutua e voa, ao som apenas da emoção.

Sou feliz, sabia, porque amanhã quando eu voltar, do passeio noturno pelo cosmos, ao abrir os olhos saberei que mais um presente chegará e o receberei curiosamente petiza.

E assim vou caminhando cada vez mais plena de vida e transformações até que me chegue a hora da última modificação e, com certeza, irei dançando em roupa de luz, costurada com os fios dourados do amor, da esperança, da fé, da coragem, da solidariedade, alegria e muito, mas muito, aprendizado capaz, transportando-me no rumo das estrelas para em outras trilhas novamente começar.

E enquanto o futuro não chega é hora, sempre hora, para abraçar cada um de todos aqueles que comigo companheiros.

S.P. 16/09/2009
Márcia Vilarinho